Desiludido desde sempre. Sem rumo consciente de um mundo ausente. O mundo se ausentou do dia-a-dia. Minha preocupação comigo mesmo é reflexo da minha preocupação com o mundo. Sim, sou curioso, tô sempre perguntando, mas nunca afirmando.
Gosto de estudar, mas só o que vejo sentido pra mim. Talvez seja egoísmo. Sou egoísta, essa é a real explicação de eu nunca falar com ninguém da vida real, mas soltar os pensamentos pra correr com o vento virtual. Levo uma vida falsa. Falsa porque me falta coragem de ser eu.
Em casa, na rua, ninguém me vê mesmo. Eu não me mostro. Quando ouso, sou agredido com olhares condenantes e cochichos ensurdecedores. No matter what I do, o que importa pra todos é se vai ter ganhos.
Não me importo com dinheiro. Nunca me importei. Mas preciso. Até quando ser sustentado pelos pais, cabrón? É errado, eu sei. 200 Reais dão e sobram. Uma espécie de pena capital pro menino mau. E meus caprichos? Porque não aceito qualquer emprego, por isso não tenho nenhum. Os que realmente me interessam a proposta, nunca sou bom o bastante pra ocupar a vaga, segundo os caras do RH. Esse sou eu à primeira vista? Incapaz? O que querem? Vomito minha alma na mesa deles, exponho minha qualidades fantásticas e meus defeitos escabrosos, minha vontade de trabalhar e aprender insaciávelmente, estar sempre atento e sorrindo, de bom-humor e amando meus coleguinhas, mas não é o suficiente. REPROVADO. REPROVADO. REPROVADO.
Porra, daí é partir pra onde? Estudar? Faço isso desde sempre e só cheguei até aqui, o que é muito, mas o mundo me diz que não é suficiente. Eu não me esforço o bastante, é isso. Realeza anêmica.
Essa coisa de dinheiro, meu filho, é a única forma de sobrevivência me dói o coração, me congestiona os neurônios e me entope as veias sanguíneas.
Money is the root of all evil
Por isso eu escrevo.
Era 24 de dezembro, 11 e pouco da noite. Camihava sozinho pelas ruas e via casas em festa, bêbados comendo churrasco e pirralhos sanguinários estourando suas bombas. Numa esquina vazia e fria, avistei uma mulher maltrapilha e maltratada, com os braços estendidos, pedoindo esmolas e/ou comida. Ela dizia em voz alta:
“-É Natal, é Natal, minha gente, Seu Noel ainda não veio entregar o prato de arroz com feijão que pedi…”
Tinha dentes podres, fedia, mas naquele dia havia se “enfeitado” pra noite de Natal. Somente os cães de rua queriam sua compania, mas era só pra conseguirem comida mais fácil. Sentada na frente de um shopping, todo decorado com luzinhas que brilhavam e piscavam numa frequência enlouquecedora e um abominável Papai Noel robô gigante (não contratavam homens pra fazer o papel de Noel mais), ela pedia aos passantes um pouco da piedade cristã daqueles consumistas que saíam do shopping ainda aberto, pra poderem vender até à meia-noite. As lojas estavam lotadas de pessoas que deixam tudo pra última hora.
Saíam tão felizes, com a felicidade embrulhada em papéis de presente decorados nas mãos que nem viam a pobre diaba e os cães à pedirem alimento. Os que viam, fingiam não ver. Alguns que passavam sozinhos, por hora jogavam moedas no chão e a mendiga saltava faminta à recolher. Pegava a(s) moeda(s) e às olhava por um instante, como se pensasse:
“-Que farei eu com isso, se o único lugar aberto agora é este maldito shopping que não me deixam entrar? O que sinto é fome! Prefiro as migalhas do seu panettone do quê moedas duras e sem gosto…”
Sentei-me do outro lado da rua e fiquei lá, observando-a. Via que dançava e cantava canções natalinas para os cães como se fossem suas crianças.
Uma senhora então se aproximou com um “tapué” e a entregou. Era peru, ou restos de um. A mendiga olhou pra senhora com cara de piedade, mas ao mesmo tempo enraivada e disse:
-Como tu, minha senhora, consegue se alimentar de uma vida no dia em que se comemora um nascimento?
A velha nada disse, apenas com espanto, jogou o peru no chão e se retirou com o ego ferido e o orgulho de cristã sendo arrastado no chão sujo. Os cães que partiram pra briga, pra se alimentarem da ave infortuna. Fizeram dela um sustento para seus pobres e podres buchos. A mendiga ignorou a oferenda da velha e pôs-se novamente à pedir com as mãos estendidas dizendo:
-É Natal, meu povo, é Natal, servos de Deus! Também tenho direito de comemorar o aniversário de Jesus, não?
Faltavam uns 13 minutos pra meia-noite. O papai Noel gigante que estava lá porta do shopping foi ligado e começou a tocar uma música em inglês:
Jingle bells, jingle bells, jingle all the way
Oh, what fun it is to ride
In a one horse open sleigh…
Há uns metros da mendiga, havia um farol onde a velha cristã que ofereceu o peru esperava fechar para atravessar a avenida e ir pra casa conar aos familiares o qunato foi “humilhada” por ter sido uma alma caridosa. O farol finalmente fecha e a velha põe o primeiro pé na rua, quando não mais que de repente, um carro em alta-velocidade vira a esquina e fura o farol vermelho descontrolado e atropela a velha, sobe na calçada e acerta em cheio a mendiga que estava de costas à dançar o “Jingle Bells”, e à esmaga contra o muro. Os cães tratam logo de se afastar chorosos! É MEIA-NOITE! Os fogos de artíficio comemoram.
À 00h06, o shopping já havia fechado e as luzes circulantes da polícia encontravam-se e misturavam-se aos piscas-piscas. O motorista do carro, um carinha de 20 e poucos anos é preso extremamente bêbado. O policial pergunta:
-Por que bebeu tanto e saiu dirigindo?
-Bebi o sangue de Cristo. O próprio me ofereceu o santo vinho e me disse pra comemorar porque Ele havia nascido. Então, peguei o carro que ganhei de presente de natal do papai e fui comemorar, ué? Que que tem, seu guarda? – rspondeu o bêbado.
A velha atropelada já estava entrando na ambulância e já partia em direção ao hospital particular de seu plano de saúde. Sofreu algumas escoriações e quebrou a perna. Não havia se formado uma multidão de curiosos, pois não queriam perder a ceia pra ver uma pobre coitada esmagada. A mendiga esperava a ambulância do hospital público.
Ainda “viva”, à 00h10, a mulher cuja o sangue se misturava à sujeira impregnada em seu corpo, agonizava ali no chão, ao lado do carro amassado, esperando a ambulância. O bêbado, com um corte na testa foi levado preso neste momento, acusado pelo bafômetro. (Dias depois o pai do sujeito pagou uma multa que o filho ganhou por dirigir bêbado e o tratamento da velha e foi liberado).
A mendiga percebeu que a hora da verdade (ou da mentira) estava chegando e disse com dificuldade ao policial que a olhava com nojo:
-É natal, meu caro! É natal. Finalmente fui digna de ganhar um presente nesse dia: um peru sem vida e um carro nas costas! Humm… M-Mas nunca-a imaginei q-que Jesus me quisesse co-como presente de-de aniversário… arghh… – Silenciou de repente, gemeu como um cão e sob aquele chão sujo, seu sangue escorreu suavemente todo pelo chão. Hora do óbito: 00H13. Enquanto agonizava ainda viva, durante esses 13 minutos tortuosos pensava:
-É assim mesmo que Tu me quer? Não esperou me tornar um pouco mais humana, meu Senhor? Este foi o presente de Natal mais significativo de toda minha podre vida: A MORTE! A minha passagem só de ida deste mundo injusto. Que será de meu corpo agora? Terei eu alma?
À 00:15, um pai com sua filha passam atrasados para a ceia pelo cenário do acidente. A menina vê o mix de luzes e escuto a sirene da ambulância que vinha chegando pra recolhar a mendiga e diz ao pai:
-Isso é natal, papai?
-É filha, feliz natal. querida! – diz o homem, não deixando a menina ver a morta.
O homem vê o corpo sem vida ali e olho pro Papai Noel-robô gigante e pensa:
-Que Papai Noel legal, minha filha iria adorar vê-lo ligado. É uma pena que já desligaram!
E os dois vão pro seu lar desejar o Feliz Natal., deixando pra trás aquela insignificância…
É o que desejo à você que enfeitou o seu lar, comprou seu peru, preparou sua ceia e chamou seu povo pra distribuir consumismos e falsidades:
Feliz Natal!
Porque nesse dia, só o que imorta é a felicidade. (E a comida, a bebida…)
-00:20 hs.
Deus E Os Loucos
Publicado: 26 de outubro de 2010 em UncategorizedTags:Deus, louco, opinião, pensando, religião, travessuras
Você é Deus e eu sou louco
Ninguém percebe isso, pois somos ótimos atores
Não tenho que acreditar em atores
Eles é que têm que acreditar em mim
Se Deus é louco, então também sou Deus
Deus não sai em capas de revistas
Deus não aparece na televisão
Porque Deus é muito feio, tem vergonha de ser uma aberração
Deus egoísta, não divide o poder com mais ninguém
Deus sabe fazer grandes jogadas de marketing
Deus não tem perfil em nenhuma rede social
Deus é bipolar, Deus não é ar, Deus não é homem, não é animal
Deus, meu Deus, não pode estar vivo
Se alimenta de lixo, respira poluição
Perdeu o corpo naquela esquina chique numa sexta-feira
Um padre achou o corpo com doenças contagiosas e as passou às freiras
Ó Criador, meu Senhor, não tens coração, não sentes tesão, por isso não sente amor
A religião já está ultrapassada demais para causar tanta dor
Deus é virgem ainda, guarda tanto fervor
Tens a mente mais poluída do que um estrupador
Deus não tem valor, é só um pecador, um pobre diabo
Não aceita concorrência, sente inveja do Beuzebu
Não pode se drogar, ficar bêbado, roubar, trepar, num pau pegar
Deus se alimenta da morte, nos vigia tal qual um urubu no ar.
A.A.S
Olhou no espelho e ele o olhou
Cinco e meia da manhã e já acordou
Dormir não era fácil, o sol nasceu
Ele acordou com os gritos da noite que morreu
Saiu de casa, pé na rua, vergonha alheia
Pessoas encaram, não está nu, anatomia feia
Ônibus lotado, pessoas de todos os tipos
Se esfregam, se tocam, fazem filhos
Emprego , escravidão, salário baixo
Chefe manda, trabalho pesado é coisa de macho
Sugam sua força, num sol de 40 graus
Rugas no rosto, calos na mão, no bolso 10 paus
Volta pra casa acabado após 10 horas
No ônibus, sentado, cede lugar à senhoras
As pernas doem, o trânsito para, todos se apertam
Ele dorme em pé enquanto as velhas fofocam
Chega em casa, filhos te abraçam
Toma banho frio, as dores não passam
Têm fome, a mulher morreu
Amanhã mais rotina de quem nunca venceu
Adriano Alves 03/06/2010 (p/ meu tio Luís Carlos)
[Reflexões longínquas sobre a morte: NÃO MORRI, MAS VOU RENASCER]
Eu descubri que talvez eu tenha sido amado
Que minha vida era um porta-retrato
Com uma foto desfocada
Mas com uma imagem pra ser lembrada
Descubri que era um rebelde que se perdeu na própria fúria
Mas que sempre soube o caminho
E tudo que tive, não era meu
Era tudo de um alter-ego egoísta, eu era só um anjo ateu
Descubri que a vida é uma utopia
Que a realidade era o que eu sonhava
A verdade era mentira, não existia família
Descubri que devia ter ignorado aquela bela poesia
Descubri
Que tinha um método cético de viver,
Que tinha uma visão umbilical de tudo,
Que o beneplácito ao estilo apático
Era só uma metáfora para covardia
E que a vida ardia a cada suspiro,
A cada espirro uma bomba explodia
E então, explicando a melodia:
Eu era infeliz e sabia!
Eu morri quando nasci e nasci quando morri
E agora o suicídio é a solução porque ainda vivo
Rejeito a vida normal… SOCORRO!!!
Vivo num morro que morreu ao vivo
Aos olhos imbecis que choram num caixão
Fingem estar tristes por um cadáver frio e sem paixão
À vida que morreu,
Quando descobriu quem era EU!
- DECLARO INDEPENDÊNCIA!!!
- REJEITO SUA PACIÊNCIA
- DESFAÇO MEU PACTO COM A CIÊNCIA
- E A PARTIR DE AGORA EU FAÇO A REJÊNCIA
- CHEGA DE DECADÊNCIA
- MELHORAMOS A APARÊNCIA
- QUEIMAMOS A DECÊNCIA
- ACEITAMOS SUA DEMÊNCIA
- COM LICENÇA, UPGRADE MINHA INTELIGÊNCIA!

